Ilusão da Rusalka ~AA~

Ren: “Nng……”

Kasumi: “Eii, até quando pretende ficar dormindo?!”

Eu abri parcialmente meus olhos, com uma leve sensação de coceira em meu rosto.

A luz da manhã entrava pela janela e iluminava minha face.

Ren: “Ei, ao menos fecha essa cortina.”

Kasumi: “Por quê? Está ensolarado e o tempo está ótimo.”

Ren: “Tem muita luz, e dá ver ver aqui dentro lá de fora.”

Kasumi: “Qual o problema, quem se importa? E cadê seus modos, não vai me dar bom-dia?”

Ren: “Todas as manhãs você……”

Kasumi: “Sim, sim, sim. Tanto faz, vá se trocar logo. Vou preparar o café da manhã.”

Ren: “Hmm……”

Eu ignorei as palavras da Kasumi e me levantei. Não tinha como continuar dormindo com o Sol da manhã batendo na minha cara.

Ren: “……Ué?”

Foram os mesmos raios de Sol que sempre batem na minha cara, mas… isso tá meio estranho, não?

Eu……

Eu tenho certeza que……

Shirou: “Ei, tá fedendo a peixe. Peixe!”

Ren: “Quê……!”

Uma escotilha se abriu na parede oposta ao do quarto da Kasumi……revelando um rosto familiar.

Shirou: “Kasumii, pare de fazer peixe, é sem graça e de pobre. Faça uma torrada, com ovos fritos para acompanhar.”

Kasumi: “Escuta aqui, você aparece do nada e ainda fica exigindo coisas? Fica quieto e come!”

Shirou: “Ehh? Mas não tô no clima pra comer um café da manhã japonês hoje.”

Ele rapidamente passou com seu torso pelo buraco na parede, jogou sua mochila no lugar que costuma sentar, e tirou a poeira do seu uniforme.

“E aí.”

Nossos olhos se encontraram.

Essa cena……

“Qual o seu problema? Ainda tá dormindo?”

Ren: “Ah, não……”

Shirou: “Vá se arrumar logo. Teu cabelo tá horrível.”

Ren: “Isso……”

Sim, isso……

Isso… é como sempre.

Kasumi: “Ei, para de ficar perambulando. Tá atrapalhando!”

Shirou: “Que cruel, hein? Estou com sede.”

Kasumi: “Esse é o leite do Ren. Não fique bebendo sem permissão!”

Shirou: “Quer que eu faça o quê? Só tem leite! Ei, Ren, eu preferia suco de laranja, não tem?”

Kasumi: “O quão cara de pau você consegue ser?”

Meu campo de visão borrado refletiu os dois enquanto se implicavam. Era nítido que eu ainda estava meio sonolento.

Esta era mais uma manhã normal.

Afinal, tudo aqui me é muito familiar.

A luz da manhã. As vozes agitadas dos dois. O aroma do miso e o cheiro de peixe grelhado.

Ren: “Vocês são vocês. Dois invasores invadindo o quarto dos outros de manhã cedo.”

Eu me direcionei à um ponto cego na cozinha, onde meu uniforme estava dependurado em um cabide. Ter que ficar me esgueirando dentro do meu próprio apartamento me deixou um pouco irritado, mas essa era a melhor forma de se movimentar.

Kasumi: “O quê? É assim que fala com quem veio te acordar?”

Shirou: “Ele não faz ideia de quanta sorte tem em ter nós dois aqui. Diga pra ele, Kasumi. Pode falar.”

Kasumi: “Esse cara aqui pode ser um grande incômodo, mas eu ainda me dou o trabalho de preparar o café para os dois. Onde está meu obrigado? Ou melhor, cadê o meu bom-dia?”

Shirou: “Ei, ela não vai mais ficar quieta agora. Diga alguma coisa.”

Ren: “De que lado você está?”

Inconscientemente, eu estiquei meu braço para ver a hora, e peguei meu celular e minha carteira, que estavam no lugar de sempre.

Coloquei dentro do bolso, e fui até a cozinha. Minha mala estava dependurada no lugar de sempre. Aqui, no meu assento.

……Bem, é o meu quarto, então todas as cadeiras são minhas.

Ren: “Bom dia.”

Kasumi:“Sim, bom dia. Já vai ficar pronto.”

Shirou:“’dia. Por acaso isso foi de propósito?”

Eu imitei o Shirou e coloquei minha mão no topo da minha cabeça, apenas para sentir um grande aglomerado de cabelos levantados.

Ren: “Hã?”

Kasumi:“Ahahahaha, meio que é fofo!”

Ren: “Até parece que é de propósito.”

Shirou: “Entendo… Até que combinou com você, então pensei que ela gostasse desse tipo de coisa.”

Quem?

Kasumi: “Vá lavar o rosto.”

Ren: “Sim, parece que faz tempo que não fico com o cabelo tão horrível assim. Vou arrumar.”

Eu lavei meu rosto, e apesar de ter exigido um pouco de esforço, arrumei meu cabelo.

Shirou: “Certo, vamos comer.”

Kasumi: “Ainda não! Espere até o Ren voltar.”

Shirou: “Ele já vai voltar. Qual o problema de começar?”

Kasumi: “Você não tinha acabado de dizer que não estava afim de um café da manhã tradicional?”

Shirou: “Isso já é coisa do passado. Esqueça.”

Kasumi: “Ren~! Anda, vamos comer juntos!”

Ren: “Tá, já estou indo.”

Uma manhã comum.

O mesmo café da manhã. As mesmas conversas. O mesmo noticiário, e o mesmo caminho até à escola.

Kasumi: “Aquele cachorrinho não era lindo?”

Parece que a Kasumi ficou bem entusiasmada com o cachorrinho que apareceu no noticiário.

“Ele balançando o rabinho enquanto caminhava… Ah, eu quero pegar no colo! Quero fazer carrinho nele! Brincar com ele! Ficar rolando pelo quarto com ele!”

Shirou: “Aquele apartamento não permite animais, lembra?”

Ren: “É mesmo, assim como é proibido abrir buracos na parede.”

Shirou: “O que foi já foi.”

Kasumi: “Sério, vocês não sentem, tipo, como se seus corações fossem curados ao ver um animal fofinho? Se chama terapia animal. Vamos parar na petshop na volta para terem um treinamento intensivo sobre isso.”

Shirou: “Você só quer ir ver os cachorros.”

Ren: “Além disso, a terapia animal não serve para diminuir o estresse através do contato com animais ou algo assim?”

Shirou: “Nós já temos um animalzinho que nos traz paz suficiente todos os dias.”

Kasumi: “Hã? Primeira vez que ouço isso? O que é? Vocês pegaram um cachorrinho que foi abandonado em um dia de chuva?”

Shirou: “O que você está imaginando?”

Kasumi: “Ei, ei! Que tipo de animal é? Um cachorro? Um gato? Qual o nome?”

Shirou: “Não é um cachorro nem um gato. Seu nome é Bakasumi.”

Kasumi: “Hã?”

Ren: “Ah, entendi.”

Kasumi: “Espere aí! Bakasumi é aquilo? Estão falando de mim?!”

Shirou: “Parece que o animalzinho aqui esqueceu o próprio nome.”

Ren: “Porque ela é só um animalzinho.”

Shirou: “O cérebro também é pequeno.”

Kasumi: “Desgraçado! Devolvam o café da manhã que eu preparei!”

Erii: “Estão bem animados, não?”

A voz que veio por trás de mim meu deu calafrios por um instante.

——Quem?

Shirou: “E aí.”

Erii: “Parece que tem dois bonitões te paquerando essa manhã. Que inveja.”

Kasumi: “Pare com isso. Esses dois são grandes ingratos que atacam sua amiga pelas costas sem nem pensar duas vezes.”

Erii: “Isso é inevitável. Não posso falar sobre o Ren-kun, mas esse outro é como um lobo.”

Ren: “Ah, bem——”

Eu conheço ela.

Bem……essa não. Eu me lembro dela, mas não sei exatamente quem é. Sinto como se ela fosse alguém muito importante……

Erii: “Ei, você não concorda, Ren-kun?”

Ren: “Hã?”

Shirou: “Ei, Ren, qual o problema?”

Erii: “Hmmm… não vai dizer que está com ódio de mim, vai?”

Shirou: “Hã?”

Erii: “Por ter roubado você dele.”

Dizendo isso, Erii colocou seu braço ao redor do pescoço do Shirou, como se fosse algo natural.

Erii……Erii……Ah, sim. Seu nome é Honjou Erii. Mas porque sinto algo tão desconfortável sobre ela? Como se a impressão que tenho dela fosse meio diferente……

Shirou: “Qual é dessa piada? Começando com essas coisas ainda de manhã……ei, eu sei que é um saco, mas ao menos cumprimente ela.”

Ren:  “Ah……”

Sim.

Ela começou a ficar com o Shirou recentemente……

Erii: “Bom dia. Já acordou?”

Ren: “Ah, s-sim… bom dia……”

Eu lembro, eu me lembro. É namorada do Shirou……

Ela é de outra classe.

Erii: “Não é divertido irmos todos juntos para a escola assim?”

Shirou: “Mesmo?”

Erii: “Você não percebe porque faz isso sempre. Eu sempre quis ter um grupo de amigos assim.”

Kasumi: “Esse cara nunca se deu bem com isso. É uma pessoa contraditória.”

Erii: “Eu sei. O redemoinho dele é todo enroscado, né?”

Shirou: “Nunca vi.”

Ren: “…………”

Kasumi: “Hã? O que foi, Ren?”

Ren: “Nada……”

Por ora, não sei explicar exatamente por que me senti tão desconfortável. Deve ser porque ainda não acordei direito.

Rea: “Você tem uma grande família, Fujii-kun.”

No mesmo instante em que abri a porta da sala de aula, eu tive que checar na placa para ver se estava no lugar certo.

“Fujii Ren-sama e seu grupo de quatro. ……”Grupo de quatro” parece algo que um tiozão diria, não?”

Shirou: “Ouviu, cunhada?”

Kasumi: “Tá chamando quem de cunhada?”

Ren: “Ei……Senpai, essa é a nossa sala……”

Rea:  “Isso mesmo. Eu tenho algo a tratar com minhas duas parasitas.”

Ren: “Parasitas……?”

Kei: “Obrigado por sua ajuda. …..Bom dia, pessoal.”

Ren: “Ah……?”

Kasumi: “Bom dia, Sakurai-san.”

Kei: “Você parece bem animada esta manhã, Ayase-san.”

Kasumi: “Está com a pressão baixa ou algo assim?”

Rea: “Ela é sempre assim. Ela tem baixa animação. Misteriosinha.”

Kei: “Não quero ouvir isso vindo de você.”

……Sim. Isso mesmo.

Essa é a Himuro Rea. Ela é minha senpai e vive em uma igreja da cidade. Ela também tem uma personalidade meio excêntrica.

É meio difícil colocar em palavras, mas ela tem um ritmo próprio bem peculiar, se mantém distante e sempre demonstra pouco interesse pelas coisas. Quando começa a se dar bem com ela, você descobre que isso pode ser bem útil e nada incômodo. Nós dois temos um confortável senso de distância entre nós.

A linda garota com cabelos pretos e longos ao lado dela se chama Sakurai Kei, minha colega de classe. Ela vive na igreja com a Senpai — uma estudante que veio da Alemanha para estudar aqui.

Sua bela aparência fez com que fosse o assunto da escola em seu primeiro dia, e sua inteligência faz jus à sua aparência, embora quando se trate da forma como ela age……bem, ela pode ser meio dura às vezes.

Mas……ué? O que é isso? Tem algo……tem algo que parece errado……

Shirou: “Ei, tá desapontado?”

Ren: “Quê?”

Havia uma parte do meu dia a dia que eu pensei conhecer muito bem, mas tinha a sensação de que algo que eu conhecia muito bem não estava fluindo como deveria. O Shirou então deu um leve tapa nas minhas costas.

“Desapontado… com o quê?”

Rea: “Fujii-kun, eu acho que é contra as regras ficar envergonhado a essa altura.”

A Senpai falou sem nem olhar para mim. Eu não consegui entender… será que ela está zangada?

Kei: “Se está esperando por ela, logo deve estar aqui.”

Ren: “Ela?”

Kasumi: “Ah, poxa! É sempre assim. Sempre bancando o bobo. Ver você tentando esconder as coisas dessa forma me deixa muito irritada.”

Ren:  “Não… do que está falando?”

Shirou: “É mesmo, Senpai. Eu trouxe o CD que tinha comentado.”

Rea: “Obrigada. Quer ouvir junto comigo, Sakurai-san?”

Kei: “Dependo do gênero.”

Shirou: “Um álbum de death metal de alguns anos atrás.”

Erii: “Ah, isso me traz lembranças. Eu também tenho ele.”

Kei:  “…Não acho que seja uma boa ouvir músicas profanas dentro de uma igreja.”

Rea: “Viu? Essa garota tem um jeito bem antiquado de pensar.”

Kei: “Não acha que você é meio excêntrica? Ei, você não concorda comigo, Ayase-san?”

Kasumi: “B-Bem, q-que tipo de letra exatamente?”

Erii:Demonic……Como era mesmo? “A Noite do Advento dos Demônios”, eu acho. É bem bom.”

Shirou: “As músicas que você elogia são só aqueles com um bom início.”

Kei: “Então, essa música é mesmo algo anticristão, não é?”

Rea:  “Tudo bem, afinal, é em inglês. Eu normalmente não entendo mesmo.”

Kei: “Rea-san, você não sabe inglês?”

Rea: “Não acha que ficar assistindo filmes estrangeiros com legendas o tempo todo só atrapalha?”

Kei: “Você sabe sim o que é dito! A Irmã vai repreender você. Afinal, ela fala inglês muito bem.”

Rea: “Acho que até mesmo Jesus só sabia hebraico.”

Kei: “Escuta aqui…”

Sakurai começou a tremer, com uma expressão dura. Embora ela parecesse o estereótipo de garota japonesa, era uma católica devota……como esperado de alguém que vive em uma igreja.

Rea: “……É uma pena. Ecoa muito bem na capela, então queria ouvir no volume máximo.”

Erii: “Qual o problema?! Isso seria super leal! Eu também queria ir ouviiir.”

Kei:  “Absolutamente não.”

Rea: “Quando quer, você é mais insuportável que uma mãe. Acho que estou começando a entender um pouco da dor do Fujii-kun.”

Shirou: “Hã? E eu?”

Kasumi: “Senpaaai, e quem é essa mãe insuportável do Ren? Ei, porque não fala olhando pra mim, Senpaaai?”

Como sempre, eles estão se divertindo juntos.

Eu me senti um pouco perplexo, mas resolvi me sentar e só aproveitar a conversa.

Ren: “Poderia me emprestar esse CD? Acho que já vi essa capa antes……”

Eu estiquei minha mão para a Senpai, quando…

???????: “Adivinha quem é?”

Alguém cobriu meus olhos de repente.

E, essa voz… Ela……

Ren: “Ah……”

Rea: “Bom dia, Rusalka.”

Rusalka: “Eiii! Não era pra contar!”

Rea:  “Será que eu atrapalhei a intimidade matinal do casalzinho?”

Kasumi: “Por que está perguntando pra mim? Ou melhor, você fez isso de propósito, não fez?”

Rea: “Apesar de ser inverno, hoje o Sol está bem quente, então pensei que não seria bom aquecer as coisas aqui também.”

Rusalka: “Não seria bom……como que não seria bom?”

Rea: “Aquecimento global?”

Kei: “Isso é um pouco—”

Rea: “Doloroso?”

Kei: “Problemático.”

Rea: “E quanto a isso? Não acho que seja bom que alguém que acabou de sair do banheiro coloque as mãos no rosto do Fujii-kun.”

Rusalka: “Ei! Do que está falando, Rea! Eu nunca faria isso!”

Rea: “Então onde estava?”

Rusalka: “Então……bem……no b-banheiro, mas……”

“Mas……isso não significa que eu fui lá para fazer certas coisas!”

Rea: “…………É mesmo.”

“Então deixe-me perguntar: o que foi fazer?”

Kei: “Isso é assédio sexual, Rea-san.”

Rea: “Eu também não acho que ela tenha ido fazer algo vulgar. Mas se isso acabar fazendo com que o Fujii-kun vá para um caminho anormal, eu não sei como reagiria.”

Kasumi: “Anormal……?”

Rea: “É claro, se está dizendo que é assim que eles tem que ser, não há nada que eu possa fazer.”

Kasumi: “V-Verdade……”

Rusalka: “Eii, para de falar coisas que os outros podem entender errado!”

Rea: “Eu acredito que todos são livres para escolherem seus hobbies.”

Rusalka: “Não é disso que estou falando! Eii, Ren-kun! Diga alguma coisa também!”

Ren: “Ah……”

……Ué?

Shirou: “Para de viajar! Sua amada já chegou.”

Ren: “Ah, não, eu não estava……”

Rea:  “Estava escrito na sua cara assim que entrou na sala “Por que ela e não a Rusalka?”.”

Kei: “Sim. Eu até disse “Bom dia”, mas você fez uma cara de “Não é você que eu quero”, e me ignorou.”

Ren:  “Não, eu não ignorei você.”

Kei: “Bom dia, Fujii-kun.”

Ren:  “Ah……Desculpa. Bom dia.”

É mesmo, acho que eu não tinha respondido de volta.

Shirou: “Sério, qual o seu problema? Esse cara tá viajando desde que acordou.”

Erii: “Talvez só esteja cansado. Por culpa de um certo alguém.”

Rusalka: “Hã? É minha culpa? Por quê? Kei, você entendeu o que ela disse?”

Kei: “Algo que é melhor não entender.”

Kasumi: “Hã? Nesse sentido? Está cansado por causa disso?”

Ren: “Espere, espera, espera. Por que acham que estou cansado? O que isso significa?!”

Erii: “Nfufufu, você sabe sim, bobinho.”

Shirou: “Ei, não devia falar assim dele. Se continuar assim, vai parecer um tiozão pervertido.”

Erii: “Ei……chamar sua própria namorada de tiozão não é meio cruel?”

Rusalka: “Ren-kun, está cansado hoje?”

Quando me dei conta, ela estava olhando diretamente na minha cara.

Ren: “Não, não é nada disso. Só tem algo me incomodando um pouco……”

Rusalka: “Ah, ainda bem. O que está te incomodando?”

Ren: “Isso……”

Isso……

Ué?

O que era mesmo?

Rusalka: “O que foi? Você não está parecendo você hoje.”

Kei: “”O que foi” nada”! Eu já não disse? Não Japão a primeira coisa que se deve fazer é cumprimentar……”

Rusalka: “Sim, sim. Poxa. Você é mesmo insuportável, Kei.”

Kei: “Insuportável……? Francamente. Você acabou de fazer aquela brincadeira ruim. Onde aprendeu que aquilo é parte da cultura japonesa?”

Rea: “É mesmo um mistério, não?”

Kei: “…………”

Rusalka: “Bom dia, Ren-kun.”

Ren: “Ah, sim. Bom dia.”

Rusalka: “E bom dia também para o resto do elenco.”

Kasumi: “Ahahaha. Bom dia.”

Kei: “O resto……”

Rea: “Eu peço desculpas. Essa personagem que parece ser do conselho estudantil não a disciplinou direito.”

Kei:  “Está dizendo que sou a única responsável?”

Rea: “Afinal, vocês duas não está na mesma classe porque disse que iria tomar conta dela?”

Rusalka: “Eu ainda disse que não precisava. Eu consigo falar japonês muito bem, não acha, Ren-kun?”

Ren:  “Ah, sim…… É fluente. Até me surpreendi quando ouvi pela primeira vez.”

……Primeira vez?

Kasumi: “É verdade! Ela até sabe mais provérbios que eu.”

Shirou: “Não acha que está comparando ela com a pessoa errada?”

Kasumi: “Quê?!”

Erii: “Ela nem tem sotaque. Bem, embora eu não saiba bem como seria um sotaque alemão.”

Rea: “Só colocar “ich” no final de tudo.”

Kei: “Não é não.”

Rea: “É simich.”

Kei: “……Está me irritando.”

Rea: “Que medoich.”

Kei: “Rea-san!”

Erii: “Quer dizer que chineses colocam “aru” no fim de tudo?”

Shirou: “Vou saber!”

Parece que o assunto está se distanciando cada vez mais.

Rusalka: “Eu sou a única em desvantagem aqui.”

Rusalka estufou as bochechas, emburrada.

Kei: “……Então por que não vai para outra classe?”

Rusalka: “Quê?”

Kei: “Se está dizendo que pode viver uma vida livre de inconveniências sem meu suporte……então devemos voltar atrás em todo o trabalho que tivemos para convencer a escola a nos deixar juntas. Ainda pode mudar isso..

Rusalka: “P-Por que está falando como se tivesse a possibilidade de eu ir para outra turma?”

Kei: “Por nada. Só achei que seria mais fácil para mim se você fizesse isso.”

Rusalka: “UuU~……”

Kasumi: “S-Sakurai-san, acho que isso foi um pouco duro……”

Kei: “Ela é mimada assim porque pessoas como você são gentis demais.”

Kasumi:  “Não sobre isso, bem……”

Rusalka: “Tá, tá, tá. Já entendi. Eu perdi. Vou escutar você.”

Kei: “Essa sua atitude……”

Rea: “Bem problemática, não?”

Kei:  “Por favor, diga algo também, Rea-san.”

Rea: “Isso parece estar envelhecendo……passo.”

Kei: “…………”

Rusalka: “Mas ficaria tudo bem mudar de turma assim?”

Kasumi: “Você se acostumou aqui bem rápido, né?”

Rusalka: “Pois é? E tudo graças ao Ren-kun!”

Ren: “Eu……?”

Rusalka: “Sim.”

Ela abriu um amplo sorriso.

Ren: “Não, eu não fiz nada……”

…eu fiz? Eu só segui com a minha vida escolar normalmente, como sempre fiz……

Rusalka: “Isso não é verdade! Obrigada por tudo.”

Rusalka aproximou seu rosto do meu, e logo senti uma gentil e suave sensação na minha bochecha.

Foi tão de repente que sequer tive tempo de me preparar mentalmente.

Ren: “……quê?”

Rea: “……ora.”

Kasumi: “Uoo!”

Shirou: “Hoh.”

Erii: “Parece que não há nada para nos preocuparmos.”

Kei: “Ah, francamente……”

Kasumi: “Ei, Ren! Vocês estão perto demais!”

Ren: “……É minha culpa?”

Rea: “……Será que estão querendo se exibir para nós?”

Kasumi: “Você acha?”

Ren: “Sério, tá dizendo que é minha culpa?”

Erii: “Poxa, não precisa ficar com vergonha agora. Vocês são namorados, então precisam ser mais ousados.”

Kei: “Não, Erii… ficar se beijando na frente dos outros é um pouco……”

Erii: “Hã? É ruim? Por quê?”

Kei: “M-……M-Mesmo que pergunte……”

Erii: “Sendo namorados, não importa quando ou onde estão, eles podem se beijar, né?”

Shirou: “Por que está perguntando pra mim?”

Erii: “Poxa, não é mais hora de ficar com vergonha.”

Kei: “I-Isso seria uma violação da ordem pública e moral……”

Erii: “Ora, que perspectiva mais fechada. Não achei que você fosse alguém tão morosa.”

Kei: “Morosa?”

Rusalka: “Ei, ei! Esse beijo não foi mais do que um cumprimento.”

Rusalka riu da atmosfera perplexa que nos envolveu.

Kasumi: “S-Sim… Um cumprimento, né……”

Entendo. Bem, faz sentido.

Rusalka é europeia, então beijos são como cumprimentos para ela.

Rea: “Ou seja, também tem beijos que não são só cumprimentos, certo?”

Kasumi: “É mesmo?”

Rusalka: “B-Bem, tem, mas……”

Erii: “Falando disso, você ainda não disse nada… Até onde vocês dois já foram?”

Shirou: “De novo no modo tiozão?”

Erii: “Ele não vai dizer nada, mas você podia me contar.”

Rusalka: “Hã? O quê? Isso……né, Ren-kun?”

Ren: “Eh? Hã?”

Quê?

Ah, é mesmo.

Eu e a Rusalka somos namorados……

Erii: “Ao menos chegaram nas preliminares, né? São o casal oficial da escola. A Senpai e a Kasumi-chan também querem saber.”

Kasumi: “Hie? I-Isso não é verdade?”

Rea: “…………”

Erii: “Tanto faz quem for. Coloca tudo pra fora logo!”

Rusalka: “Beeem, sobre isso, então……”

Ren:  “Ahh……”

Ela vai nos fazer dizer……

Rusalka: “A-Ainda……”

Erii: “Ainda?”

Rusalka: “Ainda……estamos nos cumprimentos. Aha, ahahahaha.”

Meio que, se fosse possível enquadrar o desapontamento, ele seria o que estamos vendo agora.

Shirou: “Qual é, que sem graça. Quanto vão assumir?”

Rea: “Não é ótimo, Ayase-san?”

Kasumi: “P-Por que eu?! Eu, bem……tanto faz, poxa……”

Rusalka:  “Ei, qual é dessa conversa?! De qualquer forma, o Ren-kun já é meu agora. Não podem mais ter ele.”

Rea:  “……Ei, porque acha que ela disse isso pra mim?”

Kei: “Sou eu quem quer saber porque está perguntando pra mim.”

Erii: “Seu sortudo~”

Prontamente a Honjou deu com o cotovelo no meu flanco.

Ren: “Doeu! Para.”

Kasumi: “Seu, seu~”

Logo depois a Kasumi pisou com tudo no meu pé.

Ren:  “Ei, isso doeu de verdade! E, Senpai, porque me cutucou com esse estojo?”

Rea: “Eu achei que não seria notada em meio à confusão.”

Ren: “Sakurai-san, por acaso não tem um martelo?”

Kei: “É claro que não.”

Francamente.

Isso está um circo desde de manhã.

Mas de certa forma, isso faz eu me sentir confortável.

Kasumi:  “Ah, é mesmo! No noticiário dessa manhã……”

Foi por isso que eu sempre pensei em como seria bom se o tempo pudesse parar.

Rea: “Yusa-kun, está faltando o encarte com a letra.”

Até me cansar, até que eu fique entediado de tudo, o momento mais importante que eu gostaria de parar no tempo, seria esse.

Shirou: “Ué, que estranho. Tenho certeza que tava na minha mochila……”

Mesmo que o agora eventualmente se perca, saber disso é reconfortante, enquanto não saber o que está por vir é assustador.

Erii: “Ah, você também viu aquilo, Kasumi-chan? Ei, vamos parar na petshop na volta!”

Outros poderiam chamar de “viver o momento”, um meio de escapismo que surge a partir de um efêmero momento fora do senso de valores.

Kei: “Ao menos use os fones de ouvido para ouvir no seu quarto.”

Para melhor ou pior, é uma espécie de “epidemia” que não fere ninguém. Você poderia descrever isto como uma faceta da juventude.

Essa doença——eu…

Kasumi: “Você também quer ir à petshop depois da aula?”

Até quando eu……

Ren: “Não, vou passar. Tem outra coisa que preciso fazer depois da aula.”

Eu pensei em viver na tensão dessa doença para sempre.

Rea: “Ah……”

Erii: “Hã, esse é o primeiro sinal?”

Shirou: “Idiota. É o sinal principal.”

Erii: “Droga, preciso ir. Até depois, Shirou.”

Shirou: “Beleza!”

Kei: “Você também, Rea-san..”

Rea: “Sim. Nos vemos no intervalo.”

Kasumi: “Sim, até lá!”

Todos observaram enquanto a Senpai e a Honjou deixavam a sala que não era a delas.

Eu não fiquei olhando elas irem…

…porque a Rusalka se debruçou sobre meus ombros, e disse algo no meio ouvido ao se inclinar.

Rusalka: “Obrigada por rejeitar a proposta da Kasumi.”

A fragrância que senti foi do shampoo dela, ou será que não passou da minha imaginação?

Eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas enquanto via a Rusalka sair da minha mesa e correr até a carteira dela.

Rea: “Parece que estão ficando sem.”

E logo chegou o intervalo. A Senpai murmurou isso para mim com uma expressão dócil.

Ren: “Meio que… posso saber sobre o que está falando?”

Rea: “Eu acredito que essa gentileza é um elemento valioso nos garotos, Fujii-kun.”

Ren: “Ah, é mesmo?”

Rea:  “Parece não estarem com um grande estoque de sanduíches recentemente.”

Eu estava almoçando no telhado com o mesmo grupo de hoje cedo.

Ultimamente parece ter se tornado um hábito nosso.

Embora estivesse ensolarado, o vento continuava forte, e havia uma brisa fria. Sorte a nossa que já nos acostumamos a almoçar no telhado.

Rea:  “Parece que estão ficando sem.”

Ren: “……Ah..”

Rea: “Por que será?”

Kei: “Eu já entendi, pode parar com esse sarcasmo. Eu vou comer, tá, eu vou comer.”

Rea: “Eu quero ouvir a opinião do Fujii-kun.”

Ren: “Bem, sobre isso……”

Kei: “…………”

Rea: “Ei, porque você acha que estão ficando sem?”

Rusalka: “Não é só trazer o suficiente para você comer?”

Rea: “…………”

Kei: “……Idiota.”

Rusalka: “Hã? Por quê? Por quê?”

Bem, sobre isso…

A Senpai está implicando que como eu estou comendo o lanche que a Rusalka prepara, os sanduíches dela estão ficando praticamente intocados. Ela entende o quão sutil está sendo?

Mesmo que eu pense isso, dizer olhando para a Senpai é um pouco demais.

Shirou: “Mas eu te invejo por ter alguém que traz o seu almoço.”

Erii: “O que disse? Parece que está querendo implicar algo, não? Se importa de dividir com a gente?”

Shirou: “Sem chance.”

Ren: “Ei, Senpai, por que não compartilha com o Shirou?”

Erii: “Não. Só de pensar já fico irritada.”

Shirou: “Ei, virou minha nutricionista agora? Eu como o que eu quiser.”

Erii: “Escuta aqui, eu pouco me importo se você comer traças, mas aceitar comer a comida de outra mulher é outra história.”

Shirou: “Traças……como se eu fosse comer essa merda. Ou melhor, por que traças? E além disso, eu não estou exatamente aceitando a comida dela. Você é uma feiticeira agora, Senpai?”

Não posso negar.

Rusalka: “Você misturou alguma coisa, tipo cabelo ou sangue?”

Ren: “Como sabe?”

Ren: “Você misturou mesmo?”

Erii: “De qualquer forma…”

“Eu não acredito que tenha nervos para aceitar a comida de outra mulher.”

Parece que o Shirou não disse nada a ela sobre como a Kasumi prepara o café da manhã dele todos os dias. Ele provavelmente acha que não tem motivos para contar isso.

Kasumi: “Ahahahahahaha…….Haa.”

A intrometida Kasumi deixou escapar um suspiro que carregava consigo toda sua espiral de frustração de só poder preparar almoços para ela recentemente.

O Shirou estava mastigando seu pão com croquete da cafeteria.

Bem, em comparação……

Rusalka: “Ei, ei, os hamburguinhos estão gostosos?”

Ren: “Ah, sim… isso não é congelado, é?”

Rusalka:  “Ehehe. Eu mesma preparei. Me esforcei bastante. Embora fiquei pensando o que poderia acontecer se congelasse.”

Shirou: “Olha esse almoço preparado com amor pela mulher dele. Droga, tô morrendo de inveja agora.”

Erii: “Se tem algo a dizer, fala na cara.”

Shirou: “Então vai começar a preparar meu almoço a partir de amanhã?”

Erii: “Eu não, muito trabalho. Se eu tivesse tempo pra ficar cozinhando de manhã, iria preferir ficar dormindo.”

Shirou: “Ei, Ren, o que acha dela? Ela não é estranha? Faz sentido o que ela disse?”

Eu fiquei mais surpreso em ver o Shirou fazendo o que a Honjou disse. Só isso já era algo a se valorizar, mas infelizmente, não parece ter agradado a pessoa em questão.

Rusalka: “Ei……Ren-kun, você……”

Ren: “Hã?”

Eu respondi enquanto comia as cenouras caramelizada da guarnição.

Rusalka: “Você quer comer o sanduíche da Rea?”

Ren: “Ah, não……isso……”

Rusalka: “Quer que eu comece a colocar menos coisa no seu almoço a partir de amanhã? Então?”

Ren: “Hmm……”

Eu levantei e olhei para Rusalka, enquanto passava a mão no cabelo dela.

Rusalka: “Ei! O que está fazendo?”

Ren: “Qual o problema? Não é nada de diferente do usual.”

Sim.

O agora é o melhor.

Se esse agora continuasse para sempre, seria ainda melhor.

Kei: “Uwa……O que é isso? É absurdamente cremoso……”

Rea: “Bem, é um sanduíche de creme com frutas. Eu pensei que se é pra ter, tem que ter bastante……”

Kasumi: “Então ao menos coloque frutas! Por que tem um atum aqui?”

Rea: “Mesmo que me pergunte……tudo que posso dizer é que a lanchonete da Tsuki é como uma batalha mortal.”

As três estavam sentadas no banco, conversando vividamente sobre sanduíches.

Eu as observei sem me preocupar com nada, e só fui trazido de volta à mim porque a Rusalka ficou puxando minha manga.

Ren: “Hã?”

Rusalka: “Ei, Ren-kun, aquilo……”

Ren:  “Aquilo……?”

Ela apontou para a outra ponta do banco.

“……Ah.”

Lá, o Shirou e a Honjou estavam abraçados.

De onde eu estava não tinha como ver bem, mas eles……

Rusalka: “Estão se beijando?”

Ren:  “……Talvez… ou melhor, não fica olhando.”

Dito isso, eu logo fui cobrir os olhos da Rusalka.

Rusalka: “Aww, qual o problema?”

Ren: “Qual você acha? ……Estou tentando impedir que aquilo corrompa o desenvolvimento de uma intercambista.”

Rusalka: “Quê? Mas você vê aquilo em tudo que é esquina!”

Ren: “Não, não vê.”

“Não sei como é na Alemanha, mas aqui no Japão as pessoas não costumam fazer isso. Não seria bom para as relações internacionais se você voltasse pra Alemanha achando que isso é normal aqui.”

Rusalka: “Mesmo? Outro dia a Rea e eu estávamos andando de trem e ela me disse que isso era normal. Ela disse “Amantes consideram a si mesmos o maior brilho do mundo”. Não é maravilhoso?”

Ren: “As opiniões dela estão bem longes de um ponto de vista comum……”

“……Então, o que queria falar sobre a Sakurai?”

Rusalka: “Sim. Ela ficou brava. Não acha estranho?”

Ren: “Isso é o normal dela.”

Rusalka: “É mesmo?”

Ren:  “Sim. Não fique considerando o que a Senpai acha como sendo normal.”

Rea: “Ei, acabei de sentir como se alguém estivesse falando falando algo ruim contra minha hora, Fujii-kun.”

Ren: “——Uoo, Senpai, desde quando está aqui?”

Kasumi: “Ah!”

A Kasumi levantou do banco no exato momento em que eu tropecei para trás.

Kasumi: “Cadê Shirou e a Erii?”

Kei: “……Não sei…”

Olhando na direção oposta, a Sakurai colocou o último pedaço do sue sanduíche na boca em uma aparente tentativa de se calar. Embora eu só conseguisse ver parte do seu rosto, dava para sentir que ela estava levemente corada.

……Então ela também viu o beijo deles?

Rea: “Parece que os dois se enfiaram em algum lugar para continuar com a libertinagem.”

Rusalka: “Libertinagem?”

Kei: “Rea-san……não fique ensinando expressões vulgares assim.”

Kasumi: “Li-Libertinagem……! Hã? E a aula da tarde?”

Rea: “Vão matar. Contanto que eles se amam, não precisam de mais nada. Essa é a juventude.”

Kasumi: “Hã? Ué? Mas íamos no petshop depois da aula……”

Rea: “Eles devem voltar quando tiverem terminado as coisas.”

Kasumi: “As coisas?!”

Kei: “Deixando isso de lado, temos E.F no período da tarde, Ayase-san. Já está na hora de irmos.”

Kasumi:  “Ah, mas……”

Rusalka: “É mesmo! Precisamos ir nos trocar.”

Kasumi: “Eeeeh? Mas, eu……hã?”

O choque foi tão grande que os olhos da Kasumi estavam girando, completamente confusos.

Rea: “Então, ainda é um pouco cedo, mas voltar para minha sala.”

Ren: “Pois é.”

Rea: “Para alguém mais avançada, esse frio acaba sendo duro para mim. E upa.”

Kei: “……Não fique emburrada.”

Rea: “Tanto faz. Eu sou a única aqui que é de outro ano, não há o que fazer. E não estou emburrada.”

Está emburrada. Ela definitivamente está emburrada.

Kei: “Bem……vamos ir à petshop depois da aula?”

Rea: “Vou querer ir ver os papagaios. Talvez eu possa baixar o preço deles se ensinar algumas palavras impróprias.”

Kei: “Esqueça, é melhor que não vá.”

Rea: “Estou brincando.”

Não, tenho certeza que ela faria isso.

Eu me levantei com um peso nas costas, e logo a Rusalka ficou na ponta de pé, agarrada em mim.

Rusalka: “Ah, então……”

“Depois da aula……”

Ren: “Hã? Ah, já disse que não vou.”

Rea: “Não é isso… Vamos nos encontrar aqui depois, só nós dois……”

Assim que disse isso, a Rusalka saiu correndo e seu agarrou na cintura da Sakurai. E no mesmo instante a agarrada deixou escapar um breve grito por ser pega de surpresa quando estava para descer as escadas, mas não tenho certeza do que ela disse.

Ou melhor, isso não me importava.

Os sussurros da Rusalka fizeram cócegas no meu ouvido e o deixaram com a sensação de um calor único.

Uma brisa fria soprou. O calor que envolvia meu ouvido provavelmente brotou do meu interior.

No instante que toquei meu ouvido, lembrei do Shirou e a Honjou…

Tenho certeza que a Rusalka viu aqueles dois, e já começou a nos imaginar fazendo o mesmo.

Me deixa um pouco irritado saber que o Shirou influenciou ela……

Mas estou começando a pensar que não é algo ruim.

Após aquilo minha cabeça passou o tempo todo nas nuvens.

Eu não consegui mais me concentrar de jeito nenhum.

Não, sendo honesto, eu só conseguia pensar em uma coisa.

O toque na minha bochecha, a sensação daquele cumprimento.

Sua respiração enquanto sussurrava no meu ouvido.

E aquilo que o Shirou havia nos mostrado……

Toda vez que meus pensamentos estavam prestes a seguir em direções imorais, eu começava a olhar para meus livros. Tudo que minha professora falava entrava por um ouvido e saia pelo outro.

Eu não consegui me manter calmo.

Meu coração passou o tempo todo inquieto.

Eu comecei a rir de mim mesmo, pensando como seria cômico se só eu estivesse ficado animado dessa forma.

Talvez a Rusalka não estivesse insinuado nada disso.

Se for o caso, eu sou um trouxa por ficar me empolgando com isso. Seria frustrante e patético.

Mas……

Por algum motivo, nem pensar nisso me aquietava.

Eu estava convicto.

Estava convicto que ela estava pensando a mesma coisa que eu. Que ela desejava o mesmo que eu.

Por isso……

Mesmo após o termino das aulas, o mesmo vento continuava a soprar no telhado.

Rusalka: “Está frio, né?”

Ren: “Está sim.”

Nós ficamos lado a lado, debruçados sobre a grade.

Capazes de sentir a presença um do outro, incapazes de desviar o olhar do cenário à nossa frente.

Por algum motivo, a exaurida vista do telhado, hoje, parecia um cenário completamente novo.

Durante algum tempo, ficamos lado a lado, ouvindo o barulho do vento, enquanto olhávamos para a cidade turística construída sistematicamente.

Rusalka: “…………”

Ren: “…………”

Eu senti uma fraca fonte de calor na minha mão direita. Estávamos tão próximos que se eu esticasse meu braço, poderia segurar nos ombros dela e ficarmos mais próximos.

Ren: “……Então”

Rusalka: “Aquela é a torre que subimos outro dia, não é?”

Ren: “Ah, sim……é sim.”

Rusalka: “Era bem alta né? Eu pensei que desse para ver toda a cidade dela.”

Ren: “Tudo que vimos era que não tinha nada demais na cidade.”

Rusalka: “Isso não é verdade! Tem muitas coisas!”

Ren:  “Mesmo?”

Rusalka: “Isso mesmo.”

Ren: “Entendo…”

Rusalka: “Sim.”

…………

Essa não! O que eu estou fazendo?

Eu sei que ela não me chamou aqui para falar sobre isso.

Mas……deve ter algo que eu possa usar para mudar o rumo da conversa.

Infelizmente não houve oportunidades na conversa para que eu pudesse fazer isso.

Ren:  “…………”

Rusalka: “…………”

Mais uma vez, silêncio.

Talvez não fosse o que eu estava pensando?

Eu permaneci sem dizer nada, tomado pelo silêncio e a ansiedade, até sentir algo tocando meu dedo mindinho da mão direita.

Ren: “Ah……”

Rusalka: “Oh……”

Eu virei meu rosto para o lado, e vi nossas mãos entrelaçadas.

Ren: “Rusalka……”

Me vi refletido em seus olhos azuis; seu olhar deixava uma intensa impressão em tudo que era observado por ele.

Seu olhos, sua voz… estimularam uma parte do meu cérebro.

O que é essa sensação? Essa ansiedade que venho sentido desde de manhã.

Rusalka: “Ren-kun……”

Ela moveu seus lábios cativantes, e cravou meu nome no ar frio com uma voz rouca.

Ren:  “…………”

Rusalka: “…………”

E logo, fomos atraídos para perto um do outro por uma espécie de magnetismo……

Com minha mão esquerda, e a mão direita da Rusalka, que segurava a cerca, nós inclinamos nossos corpos de forma nada natural e sobrepusemos nossos lábios.

Rusalka: “Hmm……”

Ren: “……Ah……”

A grade, ainda sendo segurada pela minha mão direita, emitiu um ruído como se me repreendesse por ter tentado capturar o calor que rapidamente desaparecia.

Rusalka: “……Não foi um cumprimento…”

Ren: “Eu sei.”

Rusalka: “Poderia ser um pouco mais……apaixonante, mas……”

Ren: “…………”

Rusalka: “Eu estou me esforçando bastante.”

“Para beijar você na frente de todos…… Na verdade, eu realmente queria ir até a petshop, mas decidi……que hoje seria o dia.”

“Por isso eu o chamei aqui, então você veio, mas……”

“Por isso……é por isso que…”

Os cabelos vermelhos da Rusalka dançaram com o vento.

“…você também poderia se esforçar na próxima……tá?”

Da ponta dos pés, eu olhei para o céu, encarando as nuvens, os fechei, inclinei minha cabeça para à direita, e logo depois abri minhas pálpebras.

Seus olhos azuis estavam olhando diretamente para mim.

Seu olhar estava preenchido pela diversão, incitação, atração e pressão.

Eles emitiram um raio invisível aos olhos, que percorreu meu corpo em instantes. Imediatamente minha mão direita soltou a cerca, como se ela estivesse eletrocutada.

Ren: “Rusalka.”

Eu aproximei minha mão, ainda entrelaçada à cerca, deixando-a mais próxima da Rusalka.

Como se meu toque fosse a chave, as mãos delas distanciaram-se da cerca.

Virados um para o outro, nós nos olhamos.

Eu olhei para seus lábios cerise, levemente avermelhados e lindos como sempre.

Não?

Não.

Sério, como eu sou idiota.

Como sempre? São os mesmo que vejo sempre?

Não, não são. Como eu nunca percebi isso até hoje?

Batom.

Eu pude ter certeza disso agora que olhei mais de perto, embora talvez não seja batom. É uma cor que eu nunca tinha visto.

Eu devo ter notada de forma inconsciente. Por isso que estou com esse sentimento desconfortável de que havia algo fora do lugar.

E pensando nisso, diversas coisas que pareciam artificias começaram a se esclarecer.

Eu estive o dia todo forçando ela a fazer o seu melhor.

E assim, eu a puxei para perto de mim seu pequeno corpo, com um movimento natural.

Rusalka: “……Tão quentinho.”

Sentimos o calor um do outros através de nossos uniformes; tão tentador.

Muitas palavras vieram à minha mente.

“Tão quente” “E se alguém nos ver?” “Tão inocente” “Seu cabelo é tão macio” “Eu preciso dizer alguma coisa” “consigo ouvir o vento fazendo a cerca sacudir” “Há uma pequena sacola plástica flutuando em meio ao vento” “Ela é tão magra” “Consigo ouvir os estudantes realizando as atividades de seus clubes” “Estou com frio” “Estou congelando” “Ela tem um cheiro tão bom”.

Tão adorável.

Mas cada pensamento que passava pela minha cabeça desaparecia tão breve quanto surgia, como bolhas de sabão.

Mais do que qualquer palavra, mais do que qualquer expressão…

…nosso abraço era a melhor maneiro de transmiti-las.

Ren: “Suas mãos estão ficando geladas.”

Rusalka: “Sim……está um pouco frio hoje.”

Dizendo isso, os dedos da Rusalka se entrelaçaram aos meus.

“Os seus também estão gelados.”

Ren: “Mas estão mais quentes que os seus.”

Rusalka: “Sim……”

Trançando seus dedos aos meus, a Rusalka encostou sua cabeça sobre meu peito.

“Me aqueça……”

Eu agarrei seus finos e gélidos dedos, tomando cuidado para não exercer muita força sobre eles.

“Não acha que estamos indo bem?”

Ren: “……Fala do beijo?”

Rusalka: “Sim. Mas aquilo foi apenas um disfarce, certo?”

Ren: “…………”

Então, significa que ela……

“……Sim, eu acho.”

Rusalka: “Você ficou satisfeito só com aquilo?”

Bem, de certa maneira.

Mas é claro que……

Ren: “…………”

Rusalka: “Aquilo durante o intervalo……foi incrível, né?”

Ren: “O quê……foi……?”

Eu sabia o que era, mas minha falta de coragem fez com que eu me fizesse de bobo.

Rusalka: “A Erii-chan e o Shirou-kun… parecia um filme.”

Ren: “Você não tinha dito que era normal na Alemanha?”

Rusalka: “Disse……mas……”

Eu sei.

Rusalka: “Kyaa!”

Com todas as minhas forças, eu a agarrei, puxando-a para perto de mim, e totalmente absorto, roubei um beijo dela.

“Ah……”

Por um único instante, ela tentou resistir, mas logo começou a se soltar, como se estivesse derretendo dentro de mim.

“Hmm……ah……Mmnn……”

Eu só percebi como meus lábios estavam ressecados depois que nos tocamos. Eu pensei em como poderia ser desagradável para ela, mas fui incapaz de me afastar daquela doce sensação.

“Mmn……”

Como se um suave lenço de seda estivesse sendo esfregado contra meus lábios, cuidadosamente traçando uma linha entre os limites dos meus lábios e minha boca.

“Ah……”

Eu senti toda a tensão dos meus braços sumir. Foi nesse momento em que percebi que a Rusalka estava na ponta dos pés.

Respirei fundo, inalando seu aroma. A Rusalka envolveu seus braços ao redor do meu pescoço tensionado, me puxando para perto dela.

Ela selou meus lábios com os seus, como se concedesse a eles a libertação de seu estado ressecado.

“Hmm……Ha ha hah……”

Rusalka riu como se estivesse sentindo cócegas.

“Nós somos incríveis, né?”

Sua voz cantarolante entoou para mim enquanto seu nariz níveo acariciava o meu.

“Afinal, estamos no telhado da escola.”

Ren: “Ninguém vai aparecer aqui.”

Eu não tinha como garantir isso, mas também não queria que tudo terminasse aqui.

Rusalka:  “Sim, mas……não estamos sempre almoçando com todos aqui?”

Ren: “Ahh……”

Talvez devêssemos ter escolhido um lugar mais romântico.

Mas eu……

Rusalka: “Eu gosto desse tipo de coisa.”

Ela soltou meu pescoço e repousou a calorosa palma de suas mãos sobre minhas bochechas.

“O nosso lugar de sempre… parte do dia a dia que conhecemos tão bem.”

“Eu me sinto mais tranquilo em lugares assim.”

Ren: “…………”

Eu suspirei inconscientemente.

Ren: “Eu também.”

Rusalka: “Ha ha hah……”

Sua respiração ao rir fez cócegas no meu rostos.

“Parecemos dois pervertidos, não acha?”

Ren: “……Onde foi que aprendeu isso?”

Eu coloquei minhas mãos sobre as delas; seus dedos se distanciaram da minha bochecha e se entrelaçaram aos meus.

Rusalka: “Você é meu dia a dia.”

Algo capaz de acalmá-la.

Ren: “Sim……”

Ao começar a esfriar, nós pressionamos nossas bochechas, um contra o outro, e começamos a nos aquecer.

E então──

“É o mesmo para mim.”

Eu abracei seu pequeno dorso que estava virado contra o avermelhado céu do ocaso.

Pude sentir o ritmo dos batimentos de seu coração, e também seu perfume, fluindo para mim através de seu calor. Juntos, olhamos olhamos para o cenário formado pelo céu tingido pelo crepúsculo, enquanto sentíamos o ar gelado do telhado soprando ao nosso redor.

Rusalka: “Você fica bem romântico em horas assim, não é mesmo, Ren-kun?”

“Sem sequer perceber, você está sempre fazendo aquilo que as garotas querem.”

“É um pouco frio, mas também é gentil……Você disse como seria bom se pudesse parar o tempo.”

Ren: “…………”

Misturada àquela modesta alegria, havia junto uma pitada de angústia.

Sua expressão tranquila foi traída por uma voz carregada com angústia, enquanto ela olhava para o horizonte distante.

Percebendo isso, não consegui evitar de responder à ela.

Ren: “Você já……passou por alguma experiência dolorosa, Rusalka?”

Rusalka: “……Não, nada, eu acho.”

“Eu estou muito feliz agora. Gostaria de puder continuar a repetir essa felicidade.”

“Ah, por acaso acha que não combina comigo? Que cruel.”

Ren: “Não mude de assunto.”

Eu a segurei com mais força para que evitar que ela desconversasse. Agora estamos olhando para a mesma direção.

Ren: “Isso é o que as pessoas desejam quando possuem algo que não querem perder.”

“O presente é como uma joia que ninguém gostaria de perder. Desejando isso do fundo de seus corações, pois não querem abrir mão de sua felicidade por um motivo que não são capazes de compreender……”

Rusalka: “……como se quisesse que o tempo parasse exatamente onde está?”

Ren: “Sim. Eles querem que a luz que tanto se orgulham de reluzir em seus corações, continue a brilhar.”

Eu com certeza lutaria com quem quer que fosse para proteger a minha.

Lutar ── essa palavra ecoou aqui de uma forma desagradável, mas ao mesmo tempo senti como se fosse estranhamente apropriada.

“Aquilo que se perdeu jamais será recuperado. Não importa o quanto você a persiga depois, simplesmente escapa de seus dedos conforme o ilude.”

Por isso eu abracei Rusalka o mais forte que pude para que ela nunca escapasse.

Por que eu estava me sentindo tão desconfortável hoje?

Este momento é incerto; representando a ilusão de andar sobre um andaime de palha. Um simples piscar de olhos fazia eu sentir como se estivesse afundando em um pântano.

Mas suas palavras──

Rusalka: “É assustador……as coisas que você disse. Você é tão forte, e ao mesmo tempo tão frágil.”

“Todos são assim no começo. Acreditando que vão ficar bem sozinhos, e contanto que continue a pensar positivamente e seguir em frente, eles certamente — não, eles definitivamente — continuariam seguros enquanto mantiverem esse sentimentos.”

“Essa é uma solução óbvia que todos podem ficar para trás……”

“Mas então, se esse é o caso ── o que eles fazem quando perdem isso de forma inesperada?”

“Você é um idiota por estragar tudo, é fraco demais para fazer a diferença. você não tem amigos seus juramentos são falhos, seu oponente era forte demais……tudo isso e muitas outras razões.”

“Nos momentos em que não temos mais o que fazer, quando alcançamos um beco sem saída mesmo depois de termos dado o nosso melhor……ei, o que deveríamos pensar?”

Ren: “Isso……”

Eu não fui capaz de responder. Sua voz, atada à tristeza maior, converteu-se em um suspiro que se dissolveu-se no crepúsculo.

Rusalka: “Você vive cada dia ao máximo como se não tivesse feito nada de errado……”

“Você ri, você chora, às vezes você acaba errando, e continua a seguir em frente……”

“Mesmo aqueles que vivem suas vidas sem cometer erros e não possuem nada para se envergonhar também estão fadados à cruéis destinos, certo?”

Sim……isso é triste, mas também pode acontecer. E justamente por isso, eu não podia simplesmente negá-la.

Todos os tipos de angustiantes infortúnios acabam causando grandes danos, mesmo quando estamos preparados para eles — como uma calamidade. O mundo transborda eles como se estivesse em efervescência, e poucos são capazes de evitar todos eles, mesmo tomando suas decisões da forma mais cautelosa.

Não importa o quanto se esforce, nunca será capaz de superar o talento. Disparidades dispostas sobre nós no momento em que nascemos.

Sendo honesto, isso é simplesmente doloroso.

“Não tem problema quando você mesmo é o culpado, embora seja difícil refletir sobre isso, mas sempre pode dizer que colheu aquilo que semeou.”

“Mas……quando você perde algo sem ter feito nada de errado, dizer a si mesmo que foi sua culpa, não é o bastante para ser capaz de se reerguer.”

“Você diz que poderia ter feito algo, mas você realmente não podia fazer nada. No momento em que percebe isso, todo que lhe resta é uma dor que nunca vai desaparecer……”

“”Siga em frente mais uma vez”, “Nunca é tarde para tentar de novo”……você sempre ouve protagonistas de programas de TV falando isso… Eu odeio esse tipo de fala. É simplesmente irresponsável.”

“Porque é correto, porque assim que deve ser feito, faça assim você também. Aquilo que foi perdido jamais será recuperado, por isso continue a proteger aquilo que lhe restou……”

“Você não pode dizer a alguém que se tornou vazio.”

“Dizer isso para alguém que foi invejado, odiado, difamado, e abandonado sem ter feito nada de errado……é cruel demais.”

Quem falou isso? Eu nunca ouvi sobre nenhum infortúnio assim. É para isso não acontecer que nós valorizamos cada dia de nossas vidas.

Ela começou a falar sobre isso como se tivesse vivenciado tudo……

Ren: “Mas mesmo assim──”

Eu comecei a sentir uma raiva misteriosa.

“Você está aqui agora, não está?”

Com uma das mãos que a abraçava, eu toquei a bochecha da Rusalka.

Junto à uma insólita e ainda assim nostálgica culpa por ter deixado alguém para trás.

Rusalka: “Ah……”

Ren: “Ou está dizendo que meu calor não passa de uma ilusão? Então eu sou um impostor muito bem feito. Nem o Shirou faria uma brincadeira tão bem feita quanto essa.”

“Você não pode recuperar aquilo que perdeu. Mesmo que diga isso após perder alguma coisa……eu não pretendo descobrir isso pessoalmente, então não me importo.”

“No fim, você só pode lidar com esse tipo de coisa depois que acontece.”

“Não sabemos o que o futuro nos reserva, e só acabaremos prendendo a nós mesmo se ficarmos olhando apenas para o passado. Precisamos seguir em frente com tudo porque o que alcançaremos esta no momento em que vivemos.”

E por isso todos vivem o presentem ao máximo.

Seja isso irresponsabilidade, ou o orgulho de alguém que manteve em segurança aquilo que lhe era querido, nós valorizamos o efêmero brilho do momento atual porque não queremos considerar qualquer tipo de perda.

Não importa o quanto eu argumente sobre isso, essa é a única conclusão que sempre irei chegar. Tanto aqueles incólumes quando aqueles indemnes podem apenas viver sob esta crença. Se não fizermos isso, eventualmente todos iremos fugir de outra coisa.

Aqueles que vivem nesta se apegam à brilhante e repulsiva luz da destruição; mesmo que isso signifique queimar eternamente suas almas na flama da calamidade.

E mais do que tudo, eu──

“Eu não perdi nenhum deles……e acima disso, eu não perdi você.”

“Isso não a satisfaz?”

Eu coloquei para fora, mesmo sendo algo muito embaraçoso.

Rusalka: “…………”

“……Pu, ku, fufu”

“Fufufufufu, ahahahahaha……sim, isso mesmo, Ren-kun!”

“Você está certo. Você está do meu lado agora! Isso me deixa muito feliz……sim, é como um sonho.”

Seu sorriso era o mais belo que eu já tinha visto até então.

Não, acho que esta é a primeira vez que vejo a Rusalka sorrir.

“Compartilhando nosso calor assim…”

“Estarmos abraçados juntos neste momento é fruto de toda a minha persistência.”

“Isso por si só ── faz eu sentir como se tivesse alcançado.”

Ren: “……Não precisa dizer, eu não irei a lugar algum.”

Rusalka: “Hã? Sério mesmo?”

“Mesmo sendo tão popular entre todas as garotas, o Sr. Bonitão conciso foi ficar apaixonado por mim, é? Fufuu~”

Ren: “Nem sou popular……”

Isso é o suficiente para o espetáculo. O que eu realmente amo é──

o que eu ── realmente amo é ──

Rusalka: “Ufufufu, sim. Poxa, não precisa ser tão insociável assim…… Eu estou muito feliz, sabia?”

“Por que eu estou nos braços do homem que eu sempre amei……”

“Eu finalmente cativei o que eu perdi aquele dia e agora pertence só a mim.”

Rusalka: “Po-r-is-so──”

E──

“Eu nunca mais o deixarei escapar.”

No instante seguinte, as palavras dela distorceram o mundo.

“Ahaha! Eu fiiiinalmente capturei você──■■■■”

Não consegui ouvir ── embora não fosse meu nome, eu senti algo nostálgico ao ser chamado por ele.

Eu não consegui pensar mais nada……

Não, talvez eu já não conseguisse há muito tempo atrás.

Porque isso era……

“Mesmo que sejam capazes de viver com a dor, nem todos consegue viver com a felicidade.”

O que distorceu-se não foi o mundo, fui eu.

Distorcendo, alargando, expandindo……e…

Rusalka: “Este é o mundo pelo qual você desejava? É verdade que eu mesma me distorci um pouco por ter me misturado à ele, mas é este o mundo com o qual você sonhava?”

“Este é o ventre da água que você tanto queria se afogar?”

Eu……

O mundo para o qual ela me atraiu era meu sonho?

“Não diria que está certo…”

Mas a verdade que ela disse também estava correta.

Eu queria retornar para meus dias mundanos, desejando que dias assim continuassem para sempre.

Mas ainda haviam muitas coisas que eu precisava fazer, eu não posso tropeçar e ficar caindo quando eu deveria estar correndo.

Se fizesse isso, já não seria mais “eu”.

“Tem razão. Não serei capaz de ver a não ser que afunde mais.”

A bruxa puxou meu pé, me arrastando para à marisma; suas palavras estava coloridas pela exasperação e uma pitada de prazer.

Rusalka: “Vamos continuar a mergulhando, indo cada vez mais fundo, até o imo das profundezas.”

“Se não fizer isto, não poderei ver seu principiumraíz. Para começar… de quem é sua personalidade?”

“Sinto que a resposta está aqui. Vamos procurar por ela juntos.”

“Se eu conseguir descobrir quem é a sua alma……”

“…acredito que minha ansiedade vai passar.”

Ren: “………gkk!”

No mesmo momento, um calafrio percorreu meu corpo, desafiando toda a lógica — como se minha alma evitasse descobrir a resposta.

Ren: “Pa…re……”

Rusalka: “Ora, por quê?”

Ren: “Eu não quero saber……”

Eu sou eu — Fujii Ren — e ninguém mais.

Eu não quero saber sobre minhas raízes, não tenho interesse nenhum nisso……

“——————―”

O que foi isso que acabou de passar pela minha mente?

Rusalka: “……Parece que temos algo consideravelmente perigoso imergido aqui.”

“Me desculpa, tá? Mas não é isso o que eu quero saber.”

Ren: “Pare—―”

Sem saber se minha boca e minha garganta eram capazes, eu emiti o grito mais desafiador que pude. Não sei o quão efetivo ele poderia ser, mas eu também não podia desistir sem resistir.

Rusalka: “Você provavelmente odeia o Lorde Heydrich, não é? Se sim, é uma raridade……ninguém mais possuem tal emoção contra ele.”

Eu não consegui ouvir a voz da Rusalka — eu não queria ouvir.

Preciso esquecer tudo o que aconteceu até este ponto e acordar. Lembrar dessa conversa não vai trazer nada de bom.

“Estou ficando cada vez mais curiosa. Eu irei puxar toda e qualquer coisa do seu âmago até o fim.”

“Não importe o quão desesperadamente você resita, não vai conseguir acordar, a não ser que alguém o acordar.”

Ren: “Alguém……?”

Rusalka: “Sim, alguém.”

“Você nunca irá emergir a não ser que alguém o socorra de seu afogamento.”

Ren: “Então……”

Apenas uma pessoa, uma única pessoa seria capaz de fazer isso.

De certa forma, é complicado admitir isso, mas neste momento eu preciso dela……

Eu implorei —— desejei do fundo do meu coração.

Se havia alguém que podia me salvar do aprisionamento da Távola Redonda Obsidiana, essa pessoa seria——

Rea: “Fujii-kun.”

Ren: “——————―”

Rusalka: “Hã————?”

Eu não consegui pensar em mais ninguém além dela.

Rea: “Acorde.”

Eu agarrei a mão que foi esticada a mim com todas as minhas forças.

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