Rea 2

Ren: “Ei, ei! Ainda está dormindo?”

“Já está na hora! Está na hora!! Esqueceu que tinha me pedido para te acordar cedo porque estava esperando visitas? Não vai ir buscá-las?”

Beatrice: “Mu, nu…”

Ren: “Francamente, eu pensei que pessoas velhas acordassem cedo. Por que essa falastrona sempre dorme até tarde?”

“Ei, acorda! Pera, será que morreu?”

Beatrice: “…………”

Ren: “Ué, será que essa velha morreu mesmo?”

Beatrice: “…………”

Ren: “Aah, ela morreu. É vida, né? Já vou ligar para a funerária.”

Beatrice:“Seu ingrato!”

Ren: “Gaahh!”

Beatrice: “Quem vai ligar para funerária, hein? Não fique matando as pessoas assim! Você é mesmo insolente e, bem… bem… Quem é você mesmo?”

Ren: “Aah~, que saco! Quem se importa com o meu nome? Além disso, pare de ir dormir com sua bengala. Eu já estou até começando a ter problemas de memória de tanto me bater com ela.”

Beatrice: “Isto faz parte das etiquetas dos cavaleiros. Samurais mantém suas espadas consigo para estarem preparados para qualquer emergência — foi o que eu vi em um filme…”

Ren: “Você nem é japonesa, além disso, é uma velha. E eu nunca ouvi falar em nenhum samurai que dormisse com objetos afiados.”

Beatrice: “O quê?! Então aquele programa de TV mentiu pra mim?”

Ren: “Bem, não sei de que programa está falando, mas de qualquer forma…”

“Suas amigas da Alemanha estão vindo hoje, certo? Se não se arrumar e sair logo, elas podem ficar perdidas no aeroporto.”

Beatrice: “Ah, é mesmo, tem razão. Eu não vejo a Anna-san há cerca de trinta anos. Na primeira vez que nos encontramos, éramos um adorável par de lindas flores. As pessoas até nos chamavam de “A Chuva Vermelha” de Berlim.”

Ren: “Vocês faziam chover sangue? Por acaso eram perigosas?”

Beatrice: “Nós sempre causávamos confusão por onde passávamos. Os litigantes sempre lutavam por nós diariamente, deixando as ruas cobertas de sangue.”

Ren: “Uwaa, que mentira idiota.”

“Especialmente vindo de uma velha de oitenta e três anos.”

Beatrice: “Se tem algo a dizer, fale em voz alta! Francamente, eu sequer consigo imaginar quem vai querer ficar com você depois.”

Ren: “Quem se importa com isso? Você conhece bem a árvore da minha família e sabe que é algo completamente incerto.”

Beatrice: “Não diga uma coisa dessas. Eu não conheço seus pais, mas é graças a eles que você nasceu neste mundo.”

Ren: “Aah, tudo bem, eu sei disso. Não quero falar sobre isso agora.”

“Eu só tenho um parente, uma velha raivosa que não bate bem da cabeça e adora bater nas pessoas com uma bengala.”

“Beatrice Kircheisen é mais do que o suficiente para mim. Eu, e também as outras crianças, e todos naquela casa, pensamos isso.”

“Se eu tivesse que ser acolhido por alguém, essa teria que ser a pessoa que me criou…..e…”

Beatrice: “Vamos, vamos. O que eu faço com essa criança? Poxa vida, ele fica falando essas coisas horríveis. Não posso dizer que já ouvi algo ainda mais assustadora à ponto de dar calafrios na espinha em toda a minha vida.”

Ren: “Não sei se está feliz ou não? Qual é, velhota…”

“De qualquer forma, vá se arrumar logo. Quantas vezes vai me fazer repetir?”

Beatrice: “Ah, você não tem pena nenhuma de uma idosa como eu… E recentemente minhas saídas tem ficado cada vez mais difíceis. Um verdadeiro cavalheiro se ofereceria para ir no meu lugar, mas, este não é um *murmura*murmura*……”

Ren: “Se tem algo a dizer, fale em voz alta você também!”

“Além disso, eu também tenho outras coisas para fazer hoje. Você não espera que eu deixe de ir fazer as provas de admissão, né?”

“Francamente, não consigo acreditar que resolveu se aposentar e se mudar assim de repente. A Kyouka-san está completamente perdida com todo o trabalho caindo nas costas dela. E as crianças também estão perguntando para onde foi a vovó diretora.”

“Você deveria pensar na sua idade e parar de ir pra lá e pra cá. De quem acha que é a culpa de eu ter que ter me transferido de escolha para ser sua enfermeira…?”

Beatrice: “Eu não lembro de ter pedido a você para cuidar de mim.”

“Além disso, a partir de hoje eu vou viver com minha amiga, então não precisa se preocupar.”

Ren: “Duas vovós de baixo do mesmo teto? É óbvio que isso não vai dar certo.”

“Fora que eu acabei de dizer que as crianças já estão com saudades——”

Beatrice: “Eles tem a Kyouka-san. Vão ficar bem.”

“Bem, eu me sinto um pouco mal por isso, mas eu já não tenho muito tempo de vida. E ainda preciso cumprir uma promessa.”

Ren: “Promessa?”

Beatrice: “Uma amiga que faleceu sessenta anos atrás me pediu para procurar por seu filho. Apesar de já ter passado muito tempo, eu ouvi que seu neto vive nesta cidade e pensei que deveria fazer todo o possível pra ajudá-lo mesmo que seja nos meus últimos anos.”

“Nós decidimos isso com a Anna-san. Eu nunca te disse?”

Ren: “……É a primeira vez que ouço isso. E não diga que tem pouco tempo, aposto que não morreria nem se te matassem.”

Beatrice: “Ora, ora… Se não me quer, você pode ir para casa quando quiser, sabia? Você tinha muitos amigos na sua antiga escola, não tinha?”

“Já namoradas…..um pena.”

Ren: “Me deixa!”

“Além disso, eu acabei de dizer que estava preocupado de vocês duas viverem juntas…”

Beatrice: “Mas eu até já contratei um cuidador.”

Ren: “Quê?”

Beatrice: “Por isso não há nada com que se preocupar. Ou melhor, seria bom se não estivesse por perto.”

“Até porque esse cuidador é o homem mais bonito que eu já encontrei. E diferente de você, ele tem bons modos e age como um cavalheiro… Ah, se eu fosse cinquenta anos mais nova.”

Ren: “~~~~~”

Beatrice: “Está com ciúmes?”

Ren: “Tanto faz.”

“De qualquer forma, eu prometi à Kyouka-san que iria cuidar de você, agora já é tarde para voltar. E também já fechei o contrato do apartamento.”

“Eu vou continuar aparecendo aqui, mesmo não sendo melhor que esse seu cuidador bonitão, ouviu? Certo, eu preciso ir.”

Beatrice: “Ah, Ren.”

Ren: “Hã?”

Beatrice: “Bem…”

Ren: “O quê?”

Beatrice: “Nada… Eu espero que tenha bons encontros na sua nova escola.”

“E arrume uma namorada enquanto ainda pode.”

Ren: “Já disse para esquecer isso!”

Beatrice: “…………”

“Fufufu, ele não é mesmo nenhum pouco honesto. Mas é bom ver que se tornou um bom garoto.”

“Eu quero que você o encontre logo, Anna-san.”

“É igualzinho a ele. Estou muito ansiosa para ver sua cara de surpresa.”

“É mesmo, eu me pergunto como cresceram as netas da Riza-san.”

“Eu rezo para que seus futuros sejam repletos de luz.”

“Você acha que serei capaz de guiá-los para essa luz, Major Wittenburg?”

Kai: “Com licença, posso fazer uma pergunta?”

“Vi você saindo da casa da senhora que mora aqui. Eu fui contratado para cuidar da sua avô…”

Ren: “Hã? Ah, sim, eu fique sabendo…”

Kai: “Sakurai. Me chamo Sakurai Kai.”

“E, bem…”

Ren: “Aah, eu não sou nada dela…apenas um idiota que é abusado por ela.”

Kai: “……?”

Ren: “Ah, não é nada. De qualquer forma, a velha que mora aqui é bem excêntrica, então tome cuidado.”

“Por acaso você é a pessoa que a Kirisaki-san disse que enviaria para cá?”

Kai: “Quê? Você conhece a Kyouka-san?”

“Sim, nós estudamos na mesma universidade.”

“Mas, sim. Faz sentido……”

Ren: “……Por acaso estamos em situações semelhantes?”

Kai: “Parece… Mas que coisa, né, hahahaha……

“Mas você está se transferindo para uma escola daqui, não é mesmo?”

Ren: “Sim, graças a uma certa pessoa. E tenho uma prova hoje.”

Kai: “Onde?”

Ren: “Academia Tsukinosawa”

Kai: “Oh, é a mesma escola que a minha irmã estuda.”

“O nome dela é Kei. Ela é um pouco obstinada e bem tímida, mas se tiver a oportunidade, seja amigo dela. Mesmo sendo irmão dela, posso garantir que é uma boa garota.”

Ren: “Tá…”

Ren: “Esse cara é mesmo elegante, porra.”

Kai: “Hã? Disse alguma coisa?”

Ren: “Não, nada demais. Certo, eu tenho que ir.”

Kai: “Sim, boa sorte na prova.”

Ren: “Digo o mesmo, aquela velha deve estar babando enquanto espera por você.”

Ren: Então——

Minha nova vida começa hoje, nesta nova terra.

Eu me sinto um pouco triste por ter deixado meus colegas da minha antiga escola……mas ao invés de ficar deprimido, por algum motivo, meu coração parece acelerado.

No fim as brincadeiras da velhota e as ordens Kyouka-san eram só desculpas.

Eu mesmo sentia uma estranha vontade……que ninguém seria capaz de explicar, de vir para este lugar.

Por isso——

“Droga. Tenho que ser muito burro se eu chegar atrasado para prova.”

À minha frente um novo futuro me espera — minha segunda realidade começando do zero.

Meu coração palpitava em expectação.

Rea: Sim, eu sinto como se tivesse feito uma promessa muito tempo atrás.

Eu passei todos os dias cercado pelo calor de outras pessoas, os dias sempre foram divertidos, e mesmo assim…

Eu sinto que há algo — ou alguém — faltando todo esse tempo. E o vazio que sua falta criou faz com que até minha felicidade se torne solitárias.

Seria isso uma megalomania? Uma fantasia sem fundamento?

Mas seja o que for, esse buraco em meu peito é indubitável real.

Eu anseio em encontrar o homem dos meus sonhos.

Mesmo que seja nada mais do que uma delusão para escapar da solitária realidade, ele vive dentro de mim. E isto é o bastante para torná-lo real para mim……

Aquilo que foi perdido jamais será recuperado. Nada é capaz de nascer idêntico duas vezes. Eu não faço ideia de que tipo de história me espera nesta nova terra, com minha vida recomeçando do zero mais uma vez.

O transiente cenário que eu vislumbrei naquele sonho desapareceu assim que eu abri meus olhos. Eu já não sei mais como ele era.

Mas eu lembro de tê-lo amado. Era muito precioso para mim. Estes sentimentos ainda permanecem comigo. E eu posso declarar sito com total convicção.

Nesta realidade que já não é mais uma ilusão——

Rea: “Eu desejo criar um novo presente aqui.”

Ren: “Porque eu acredito——”

Rea: “…que irá tomar a forma de uma felicidade não menos inferior aos remanescestes deste sonho.”

Shirou: “É mesmo, Senpai, eu trouxe o CD que você pediu.”

Rea: “Obrigada, quer ouvir junto comigo, Sakurai-san?”

Sakurai: “Dependendo do gênero.”

Shirou: “Um álbum de death metal de alguns anos atrás.”

Erii: “Ah, isso me traz lembranças. Eu também tenho ele.”

Kei: “…Não acho que seja uma boa ouvir músicas profanas dentro de uma igreja.”

Kasumi: “B-Bem, q-que tipo de letra exatamente?”

Rea: “Provavelmente é algo do tipo…”

Rea: “――――Ah.”

Kei: “…? O que foi, Senpai?”

Rea: “Não, bem…”

Kei: “Esse cara é seu conhecido?”

Rea: “Eu…”

Ren: “Me desculpe.”

“A Academia Tsukinosawa é seguindo em frente, né?”

Rea: “Ku-Kumamoto”

Ren: “Quê??”

Rea: “Você quer ir para Kumamoto?”

Ren: “Hã, Kumamoto…?”

Ren: “Por um momento eu fiquei espantado com aquelas palavras que foram ditas, mas então——”

Marie: “Eu disse que iria abraçar a todos.”

Rea: “Sinto como se tivesse uma garota que eu conheço, sorrindo gentilmente sobre nós.”

Ren: “…Tem certeza que não quer ir para Ooita?”

Rea: “E-Eu acredito que já me aventurei o suficiente no inferno por uma vida…”

Este era um sentimento que ambos compartilhávamos.

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