Rea

E……

A primeira coisa que senti foi uma dor de cabeça que eu não soube explicar.

Rea: “mu, nu……”

O que é isto? O que isto significa? Minha cabeça dói e me sinto pesada.

Como se um grupo de pessoas estivesse dentro do meu crânio celebrando seu Ano-Novo enquanto toca seu sino 108 vezes. O que não seria algo ruim, se minha cabeça não estivesse prestes a explodir. Por isso, seria ótimo se eles pudesse diminuir um pouco o ritmo.

“Nu…guo…”

Mas essa gente não sabe se comportar nem um pouco mesmo. Eles devem ser muito persistentes. Eu realmente adoraria se eles fizessem suas comemorações em outro lugar.

“Este não é…o templo.”

Era a igreja. Sim, não havia dúvidas quanto a isso. E ainda faltam alguns dias até a Véspera de Ano-Novo.

Pare. Está doendo, Jesus. Esta brincadeira é completamente inaceitável. Sério, parem.. ai! Já estou no meu limite.

“Aa…aa~~~”

Emitindo uma lamúria que deixaria qualquer fantasma de filme de terror com vergonha, eu virei minha cabeça no travesseiro, mas não teve efeito algum.

Eles sãos persistentes. Essa gentinha é mesmo persistente. O que eu fiz para merecer isso?

Gangangan.

Gongongon.

sugangobangubandoganbagangushangaragarabakkin.

“…………”

Esses estranhos efeitos sonoros representam meu estado mental no momento.

Ou seja…

“AAAaaa, fiquem quietos! Vou fazer yakitori de vocês se não pararem com isso!”

Eu saltei da minha cama berrando.

“Ugh…guohpu…”

Eu senti uma inexplicável tontura e uma vontade de vomitar. Incontáveis garrafas de vinho, espumantes, sakes, conhaques e latas de cerveja vazias estavam espalhadas pelo chão – essa gentinha na minha cabeça era inevitável.

“…………”

Aah, o que é isso? O que eu estou fazendo aqui? Eu sequer quero considerar essa situação como uma perspectiva natural.

Eu disse que não quero!

Kasumi: “Funyu~, monyamonya……”

Shirou: “Guoo~~、ga~~”

Erri: “Nnn, sem chance… Você não pode comprar uma mochila com cem ienes…”

Kei: “Atire…lá…mais… isso…Fufufufu…É cedo demais para você, vai precisar de mais 10 anos para conseguir.”

Rea: “…………”

Diante dos meus olhos, ou melhor, abaixo deles, há cadáveres deitados lado a lado, como um campo de guerra.

Eu parei para pensar um pouco, enchi um bule com molho de tabasco e água quente e os misturei bem. Quando ficou com uma bela coloração avermelhada, eu parei e segui para executar a técnica secreta que eu nomeei de “Jardineiro de Deus”.

Qualquer flor murcha iria se reerguer imediatamente após provar uma gota desta água mágica.

Rea: “Hanasaka jii-san!”

Eu proferi o feitiço e prossegui com a ressurreição dos cadáveres.

Sim. Cada um deles reproduziu um grito único. A Sakurai-san fica com a melhor nota foi realmente muito fofo, e algo que você nunca esperaria dela. Nice.

Kei: “Ei! O que está fazendo, assim, do nada?!”

Kasumi: “Aaa, eu estava prestes a saborear de um peru gigante…”

Erri: “Ahh, bem… ‘dia, Senpai.”

Rea: “Sim, bom dia.”

Parece que um dos cadáveres ainda estavam rolando de dor no chão, mas ninguém se importou com ele, então continuamos.

Shirou: “Você nem se importa!”

Rea: “Mas eu não disse nada.”

Shirou: “Eu posso dizer só pelo seu olhar. Por que eu sou o único que leva um tapa na cara?”

Rea: “Não sei… por que será? Por algum motivo, ver seu rosto me irrita.”

Shirou: “Que tipo de delinquente é você…?”

Erii: “Tem certeza de que você não disse nada?”

Shirou: “Tenho! Eu sou a vítima aqui.”

Kei: “Senpai, meu cabelo está oleoso e parece estar emanando um odor agressivo.”

Kasumi: “Uwaa, tá fedendo a tabasco!”

Rea:“Vocês duas não costumam se cuidar, então considerem como um presente meu.”

Kasumi & Kei: “Não queremos!”

Erii: “Sabe, todos estamos acabados. Eu aprecio sua boa vontade de nos acordar, mas tente ter mais consideração. Minha cabeça ainda está doendo.”

Rea: “Deus ajuda quem cedo madruga.”

Kei: “Eu não… faço ideia do que quer dizer.”

Kasumi: “Provavelmente ela só quis aproveitar que foi a primeira a acordar para nos agraciar com um péssimo despertar.”

Kei: “O quão mal-humorada ela está?”

Shirou: “Sim. A empatia dela é proporcional aos seus peitos.”

Rea: “Então, porque não fazemos o seu você-sabe-o-que três vezes maior?”

Shirou: “――Espera! Nãonãonãonão! O que é isso na sua mão? Não me assuste assim, Senpai!”

Rea: “Honjou-san, segura ele.”

Erri: “T-Tá…”

Rea: “E vocês, dupla superpoderosa, também.”

Kei: “…Ei, Yusa-kun, tem certeza que você não fez nada para deixá-la ressentida?”

Kasumi: “Vai saber, mas estamos falando do Shirou, então~~”

Rea: “Rápido.”

Kasumi & Kei: “S-Sim!”

Shirou: “Eiiiiii, o que são vocês? Um grupo de estupradoras?!”

Kasumi: “E-Ei, não se mexa, idiota!”

Erii: “Sakurai-chan, vai logo. Abra logo o zíper.”

Kei: S-Sim…*engole*”

Shirou: “Sua cara tá ficando toda vermelha!”

Rea: “Bem, para ser sincera, eu também estou ficando excitada.”

“Como posso dizer, Yusa-kun, acredito que você deveria experimentar passar por uma humilhação ao menos uma vez na sua vida.”

“Caso contrário, não haverá um balanceamento. Como se nunca fôssemos alcançar a verdadeira catarse se não fizermos isso ao menos uma vez com você……”

“Bem, de qualquer forma, eu devo executar o Hanasaka jii-san na sua virilha agora.”

Shirou: “O que está dizendo com “de qualquer forma”? Eu não faço ideia do que está falando. Você caiu de cabeça no chão quando era bebê? Que merda é essa de Hanasaka jii-san? Ou melhor, se minha flor murchou, foi por causa disso, imbeciiil!”

Erii: “Mas essa não é uma situação digna de sonho, não??”

Kasumi: “Cercado por quatro belas garotas.”

Shirou: “Belas garotas? Onde? Se foder!”

Kei: “………”

Erii: “Comandante, a Sakurai-chan está tremendo de medo de tocar no zíper.”

Rea: “Supere isso. É superando isso que as mulheres ficam mais fortes.”

Kei: “…Tá.”

Shirou: “Que merda você tá fazendo falando assim como se fosse um dever solene?!”

“Além disso, pensando bem, vocês–”

Rea: “Calado. Vamos começar logo.”

Eu realmente não estou me entendendo, eu só senti que queria provocar o Yusa-kun hoje. Sinto que seria injusto com alguém se eu desperdiçasse essa oportunidade.

Digo, se continuar assim, vai acabar sendo…

Shirou: “Vocês, garotas, não poderiam continuar fazendo suas coisas de garotas juntas? Sabem o quão desconfortável é ser o único cara aqui?”

https://i.imgur.com/RhUm9ki.png

“―――――――”

Erii: “H-Hã? O que foi, Senpai?”

Kasumi: “Parece que ela congelou…”

Kei: “Não está se sentindo bem?”

Rea: “………”

Erii: “………”

Kasumi: “………”

Kei: “………”

Shirou: “Ah, não, tipo… Eu vim aqui por conta própria, então, por isso, eu não posso reclamar, é isso?”

Rea: “………”

Kasumi: “Ei, Shirou…”

Kei: “Você não está escondendo nada, não é?”

Erii: “Podemos deixar passar se confessar agora.”

Shirou: “Quê? Não! Sério, eu não sei de nada.”

Kasumi: “Você pode dizer isso, mas sabe…?”

Kei: “Não tenho certeza se posso confiar em você.”

Erii: “Poxa, bota tudo pra fora logo.”

Shirou: “Eu já disse――”

Rea: “Desculpa. Não é nada.”

Kasumi: “Eh?”

Kei: “Bem…”

Erii: “Mesmo?”

Rea: “Sim, tudo bem. Podem soltar o Yusa-kun.”

Erii: “………”

Kasumi: “………”

Kei: “………”

Shirou: “Por que todas estão olhando como se eu tivesse feito algo de errado?”

Rea: “Eu já me desculpei, não se preocupe. Não é nada mesmo.”

Sim. Não é nada. Não há nada de estranho aqui. Eu mesma não sei o que foi esse desconforto que senti.

“Desculpe por fazer toda essa confusão tão cedo assim. Eu vou limpar as coisas, então podem ir tomar banho. Eu derramei tabasco em vocês.”

Erii: “Ah, muito obrigado. Eu agradeço sua gentileza.”

Kasumi: “Não, tudo bem, Rea-san. Nós fizemos essa bagunça juntos.”

Kei: “Foi a minha primeira festa de Natal, então acabei indo um pouco longe demais. Eu vou ajudar com a limpeza.”

Shirou: “E também, Senpai, hoje não era seu aniversário?”

Rea: “Sim, bem, é, sim.”

Ontem foi tanto a Véspera de Natal, como também, a cerimônia de encerramento das aulas, então celebramos ambos, tal como meu aniversário, com uma festa de Natal, e bebemos a noite inteira até não aguentarmos mais.

Eu me lembro disso. Eu me lembro muito bem disso, não foi uma mentira.

Porém……

A minha prima de segundo grau, a Kasumi-chan.

Seu amigo de infância, Yusa-kun.

A Honjou-san, cuja família é dona de um grande hospital.

E também, minha amiga com complexo de irmão, Sakurai-san.

Contando comigo, cinco pessoas no total. Nós somos bons amigos já faz algum tempo, e, às vezes, saímos juntos. Por isso, o que tivemos hoje não foi nada fora do comum…

Não há absolutamente nada de estranho nisso, mas, mesmo assim, eu sinto que está faltando algo. Como se estivesse faltando alguém aqui……

Kasumi: “Vamos, nós vamos arrumar tudo aqui antes que perceba, então pode ir se arrumar, Rea-san. Nós já vamos ir.”

Erii: “Ah, é mesmo? Hoje é o aniversário da morte da sua bisavó, né?”

Kasumi: “Sim, ela também é minha bisavó. Vamos juntas visitar o túmulo dela.”

Shirou: “Hmm. Então também vamos, pode ser?”

Kei: “Se não for um problema, eu também gostaria.”

Kasumi: “Hã? Mesmo? Bem, eu não quero ser grosseira, mas vocês não tem relação alguma com isso… Bom, acho que ela ficaria bem feliz em receber mais visitas, mas…”

Shirou: “Bem, quem sabe, mas sinto que vai.”

Kei: “Eu também… mas não sei bem como explicar.”

Kasumi: “E você, Erii?”

Erii: “Se estiver tudo bem com a Senpai, eu também quero ir.”

Kasumi: “Então, como vai ser, Rea-san?”

Rea: “…………”

Eu não tenho motivos para recusar.

Rea: “Tudo bem.”

Eu respondi de forma breve antes de ir me arrumar. Sinceramente, não chega a ser um problema várias pessoas irem visitar o túmulo dela. Afinal, ela está dormindo aqui atrás da igreja.

Não levou mais do que uma hora para tomar um banho e ir comprar flores em uma floricultura aqui perto. Todos já estavam prontos quando eu voltei.

Hoje é vinte e cinco de dezembro…meu aniversário, e também o dia de seu falecimento.

Na verdade, é bem estranho. Por algum motivo, tanto a Kasumi-chan quanto eu sentimos um anseio inexplicável de poder abraçá-la, mesmo nunca tendo encontrado com ela.

Eu me pergunto que tipo de pessoa ela era. Como ela se parecia, como era sua voz, como ela viveu. Nós não temos fotos dela e meu avô faleceu na casa dos vinte. Meus pais ainda estão vivos, mas se mudaram para o exterior há cerca de cinco anos, por isso perdi minha chance de aprender mais sobre minha bisavó.

A Kasumi-chan também parece estar em uma situação similar. Possivelmente nós sentimos essa estranha conexão com “ela” por ser a única parente de sangue que está próxima de nós.

Todos nós sabemos seu nome e os anos que ela viveu. Isto é realmente tudo que podemos falar dela, mas mesmo assim…

Rea: “Bom dia, Riza. …O tempo está ótimo hoje.”

Eu a chamei como se fôssemos grandes amigas.

RIZA BRENNER, 1915~1945――Isto é tudo o que eu sei sobre minha bisavó.

Mas, sempre que venho aqui, sinto esta estranha sensação. Como se memórias que não me pertencem surgissem na minha mente como um flash e desaparecessem.

Sua voz. Seu rosto. Seu calor…eu nunca o esquecerei. Meu coração diz que eu ainda lembro, como se estivesse orando.

O que isto significa? Qual o meu estado mental, afinal? Mesmo sento um sentimento incomum, é um sentimento no qual eu não quero me desfazer, jamais.

Mesmo que isto fosse não mais do que uma mera atuação encenada por uma delusão para escapar da solidão, a Riza vive dentro de mim. E isto é o suficiente para fazer disto algo real para mim.

Kasumi: “Vovó, por favor, peça ao Deus do Inglês para me ajudar na próxima prova~~”

Erii: “Poxa, Kasumi-chan, você não está em um santuário.”

Shirou: “Ou melhor, tenho certeza de que o Deus do Inglês só fala inglês!”

De fato, e, além disso, a Riza era alemã. E inglês está fora do meu alcance.

Por isso, bem… cada pessoa possui seu conceito de morte.

Kasumi: “Então, então! Me deixe vencer na loteria de Ano-Novo~~~”

Erii: “…Está cada vez mais parecido com uma prece aos deuses.”

Shirou: “Bem, de certa forma, estamos em um lugar sagrado…”

“Então, vovó…eu tô querendo uma moto. Tem como fazer alguma magia para ela aparecer por aqui?”

Kasumi: “Ei! Pare de desperdiçar os poderes da vovó com coisas estúpidas!”

Shirou:Esse é o seu problema…?”

Erii: “Aah, nesse caso, eu quero uma nova placa de vídeo. Poderia dizer à rena do Papai Noel para me trazer uma se ela estiver aí com você.”

Kasumi: “Isso mesmo, o Papai Noel! Tenho certeza de que a vovó o conhece!”

Kei: “Escutem aqui, vocês poderiam parar com essa grosseria?”

Não, tudo bem. Não é nada disso, afinal, ela também está rindo.

Por isso, eu também devo rezar pelo meu desejo.

Rea: “Riza, na verdade, logo eu vou me formar, mas, pelos problemas que aconteceram, parece que não conseguirei ir para a faculdade ou arranjar um emprego. Minha vida está um pouco encrencada.”

Kei: “Até você está nessa, pare…”

Rea: “Por isso, ei, o que acha que eu deveria fazer?”

Cada dia é sempre divertido e é muito tranquilo aqui. Eu me sinto completamente envolta pelo calor de todos, mas ainda assim…

Eu sinto que há algo – ou alguém – faltando entre nós. E o vazio criado por essa ausência que faz até mesmo com que os lugares mais calorosos pareçam solitários.

Seria isso uma megalomania minha? Uma fantasia sem-fundamento?

Mas, independente do que seja, esse vazio é um fato incontestável.

Shirou: “Você não tem escolha a não ser casar, né?”

Erii: “Sim. Não consigo imaginar nada diferente.”

Eu desejo fortemente encontrar, através do destino, a pessoa que amo.

Mesmo que isso não passe de uma forma de me entreter para escapar da solidão, ele vive dentro de mim. E isto é o bastão para fazer dele real para mim.

Rea: “Encontre meu marido, Riza.”

Eu proferi aquelas palavras, como uma oração…

Kasumi: “Waa…”

Kei: “O vento…”

As pétalas de nossas flores cor-de-rosa foram pegas pelo vento, e sua dança recordou-me a visão de um paraíso que, certa vez, testemunhei.

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